Ultimamente tenho pensado em como, o tempo todo, temos que lidar com pequenas despedidas de nós mesmos, muitas vezes sem a chance de reconhecer que estamos nos tornando diferentes.
Existiu, para todos nós, aquela última vez em que brincamos como crianças, e tão interessados em saber mais sobre a vida, nos tornamos adolescentes sem perceber que a infância estava ficando para trás.
Cada relacionamento que tecemos, lugar em que vivemos e momento em que estamos exigem de nós um conjunto de habilidades muito diferentes, e com frequência precisamos fazer um rearranjo dentro de nós mesmos para dar conta das exigências da vida.
O tempo todo estamos nos despedindo de pessoas, momentos e lugares, e com isso, de versões de nós mesmos que só existiam conectados à esses contextos particulares.
Algumas despedidas são mais do que bem-vindas. É maravilhoso saber que existem certas pessoas que não vamos encontrar, lugares a que não precisamos ir, e experiências que não precisamos repetir.
Outras despedidas são mais dolorosas. É sofrida a despedida daqueles que amamos, de lugares dos quais gostamos, e de momentos da vida que vão ficando para trás.
E é sofrido quando precisamos nos despedir de versões de nós mesmos que, por uma série de circunstâncias, deixam de fazer sentido.
A verdade é que dói se despedir de quem que a gente gostava de ser
O complicado é que temos pouca chance de nos despedir de nós mesmos, porque raramente nos damos conta das mudanças que vão acontecendo. De forma natural e sutil, a gente vai se transformando. A gente é uma coisa até o momento em que não é mais; a vida começa a ter um novo sentido, algumas coisas passam a ter outro ritmo e significado, e quando nos damos conta, a pessoa que costumávamos ser ficou perdida em algum lugar do passado, e precisamos conviver com a pessoa estranha que nos tornamos.
Isso exige de nós um movimento constante de nos conhecer de novo e de novo. É impossível prever como as situações que estamos vivendo vão nos mudar, e nesse ínterim, é fácil nos tornarmos estranhos para nós mesmos.
E que horror é descobrir que, dentro de nós, também precisamos sustentar silêncios constrangedores até conseguirmos criar intimidade com quem somos agora.
Como não dá pra passar a vida sendo uma coisa só, e já que a mudança é inevitável, o que podemos fazer é honrar aquilo que um dia já fomos, e ter paciência com esse ser desconhecido que somos. Nossas diferentes versões nos trouxeram até aqui, e continuam existindo em algum lugar dentro de nós; com certa frequência, até acabamos encontrando com elas por aí.
E, como escreveu Mary Oliver em Manhãs em Blackwater:
O que quero dizer é
que o passado é o passado
e que o presente é a tua vida
e podes
escolher o que ela será,
querido cidadão.
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